Texto Curatorial

O CINEMA É NEGRO!

Em sua segunda edição, a Mostra Negritude Infinita cria uma janela  de exibição para a produção mais recente de realizadores negrus brasileiros e um espaço reflexão sobre os rumos do cinema negro no Brasil contemporâneo. 

A mostra nasceu da vontade de se falar de algo inalcançável, é impossível perceber a infinita camada que cobre nossos contos e falas, de um modo único. Ser infinito é antes de tudo estar vivu, pois o espaço, assim como a fala e a imagem, é um gesto sem fim e, se dentro de suas camadas múltiplas podemos estar, nossa estética preta não existe no campo da essencialidade e da colonialidade. A Negritude Infinita continua nessa segunda edição o seu projeto de curadoria sobre formas e estéticas que se chocam entre suas linguagens diversas, vizinhas e também díspares, que se completam ou se expulsam em seus corpos e corpas diversas. 

O Cinema Negro não é um nicho cinematográfico, é o lugar da afirmação de identidades, corpos e estéticas, que se faz pela diversidade e multiplicidades das incalculáveis negritudes. Essa mostra pretende trazer um panorama do Cinema Negro Contemporâneo no Brasil, através da exibição de cerca de 70 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens oriundos de todas as regiões do país, em que cineastas e realizadores negres, sejam oriundes de escolas de cinema, de periferias, de coletivos e de novas produtoras audiovisuais. Trazem em suas produções os seus lugares de afirmação de potências imagéticas e construções de narrativas. Nosso gesto aqui é uma simples e intensa tentativa de correr sobre a tela escura do espaço cinematográfico e concretizar a criação de novos territórios para o povo negro.

Nossa programação é composta também pelo Seminário, com a presença de 14 pesquisadoras/es e realizadoras/es como Cintia Lima, Déo Cardoso, George Ulysses, Izabel Melo, Kiko Alves, Lidia dos Anjos, Luca Salri, Luciana Oliveira, Magno Rodrigues, Mara Rachel, Naymare Azevedo, Rayanne Layssa, Paolla Martins e Rodrigo Ferreira. O Seminário possibilita encontros e discussões mais aprofundadas sobre diversos aspectos dessa produção audiovisual, trazendo para as mesas questões como a presença negra nas telas, estéticas e narrativas em perspectivas, o cinema feito no Ceará e a difusão de obras e o circuito de festivais e mostras de cinema negro no Nordeste.

Teremos ainda duas oficinas gratuitas, em “Afroficção” a realizadora Anti Ribeiro apresenta a criação de um espaço em que se propõe a estudar as estratégias historicamente utilizadas para representar o corpo preto nas artes a partir da exotização e, assim, usá-las e revertê-las ao nosso favor. Cruzando fotografia, música, teatro, artes visuais e literatura, “Afroficção” insere-se como ferramenta de desconstrução (a curto prazo) e destruição (a longo prazo) destas normas estabelecidas de representação. Já Bruno Victor propõe em “O corpo LGBTQ negro no cinema contemporâneo” uma discussão sobre cinema negro e como realizadores negros e negras estão reformulando a maneira em que se desenvolve a trajetória de personagens LGBTQs nas narrativas cinematográficas.

Ao afirmar-se enquanto corpos e corpas negres no Brasil, historicamente, afirma-se também enquanto lutas individuais e coletivas. Entender esses tantos lugares desses corpos e corpas no mundo passa também por evidenciar contranarrativas, percebendo nossas estruturas culturais e sociais e sem ignorar as amarras e armadilhas da colonialidade, entretanto, buscando sempre por outras formas de vida para nossas vidas. Corpo que é tempo, é território, é espaço e é política. Na Negritude Infinita, de forma expandida, procuraremos apresentar os mais diversos contextos, espaços, idades e gêneros, identidades e imaginários as quais corpos negres vivem e são fabuladus a viver, sem se apegar aos olhares e perspectivas coloniais, mas sim, avançando no tempo que é nosso e feito para nós.