Texto Curatorial

Um dos grandes desafios do nosso tempo atual é conseguir manter uma potência imaginativa capaz não só de nos manter vivos, mas de criar novas estratégias de reconstrução do mundo. Acreditamos no cinema como uma arma de enfrentamento às políticas de morte, e em meio a uma pandemia mundial associada à deterioração da já capenga democracia brasileira, nosso exercício de curadoria é também manter o olhar atento para como esses filmes refletem nosso tempo e podem construir outras perspectivas de mobilização política. 

Como todo o resto, curar filmes tornou-se um desafio durante a pandemia. A 3ª Edição da Mostra Negritude Infinita, segue o ciclo de transformações que experimenta desde sua primeira edição. No ano de 2021, os cinemas seguem fechados, mas artistas seguem  produzindo. A nossa curadoria recebeu cerca de 90 filmes realizados por pessoas pretas através da nossa chamada virtual.  

Filmes-cartas, filmes-memória, filmes em casa. Para além da forma fílmica, o isolamento social reverberou nas criações do último ano sob diversas instâncias. Equipes reduzidas, filmes feitos com celular, filmes sobre amor à distância. Os cinemas, assim como a nossa Mostra, resistiram, encurtaram e abriram caminhos. Novos Caminhos.

Darwin, Leon, Lílian e Luly, responsáveis pela seleção da 2a Edição da Mostra, ocorrida em 2019, seguiram juntes no desafio da curadoria este ano. Dessa vez, no entanto, os encontros presenciais para pensar as dezenas de filmes recebidos, deram lugar às longas reuniões online.

Com o processo todo transmutado para o virtual, experimentamos olhar para os filmes sem vislumbrar a possibilidade da experiência fílmica em telas maiores e salas fechadas. Se antes já passávamos a maior parte do tempo vivendo através de telas, o isolamento social da pandemia trouxe também o agravamento desse cenário. Isso, obviamente, provoca profundas mudanças na forma como visualizamos os eventos, como percebemos as coisas do mundo, como se dá o nosso processo mesmo de cognição. Aqui não poderíamos ficar imunes a isso.

Montamos sessões sem, necessariamente, nos prendermos a uma ordem estática e pré-definida dos filmes. Aqui, os filmes ficarão ordenados a partir da nossa leitura curatorial, mas a escolha final será de quem está do outro lado da tela, uma vez que poderá assistir aos filmes na ordem que preferir. Como tem de ser, as opções seguem infinitas. 

Nesse ano de negociações, nosso processo coletivo foi adaptado, nossa Mostra se adaptou. E a transformação da Mostra Negritude Infinita também nos reconfigura quanto ao acesso aos filmes selecionados. As restrições territoriais de uma mostra física deixaram de existir e agora, mesmo que por um tempo determinado, o mundo inteiro terá acesso às nossas escolhas. Os filmes ficarão disponíveis no site, do período de 18 a 28 de março. Selecionamos cerca de 34 filmes, entre curtas, médias e longas, feitos antes e durante a pandemia, por realizadores, produtores e/ou atores negres. Vida longa!

Curadoria: Darwin Marinho, Leon Reis, Lílian do Rosário e Luly Pinheiro

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